eutênh'ò(um)blög

c o n ce i t u a l.
episódio 4:
cinco temas e o mundo.
estágio:
tema três: proximidade.
[anterior: ineditismo.
vericidade.]
encerrados:
episódio_3: [glass remains gold]
episódio_2: [cartas à]
episódio_1: [música de fundo]
oobrgadho pel viztaa, leitor.

estado de espírito:

Alguma coisa entre Dirty Dream Number Two, do Belle and Sebastian e Please, Please Please..., do The Smiths...just like:::
a choice is facing you, a healthy dose of pain; a choice is facing you as you stare through the rain; a choice is facing you but I choose to refrain for today...tomorrow we'll be back in trouble again_____why is this happening to you? You're not a child Why is this happening? You've too much in your mind! Things creep up when you are fast asleep, you're dreaming, you're stuck in the shit|||dream TWO you couldn't see her face but you saw everything else... dream two it was pretty special, easily beats loving youself.





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Segunda-feira, Outubro 31, 2005


um post grande com poesia e sexo, sem fim.

Tratamento rápido, que quero imitar aquele cara da Folha.
___Falemos de atos carnais.
Propuseram o tema nesta comunidade, assim sugerido, assim escrito o texto cá embaixo. E já que tocaram no assunto, já que ela cai tão bem no conceitual desse momento, continuemos falando disso. Cabe perfeito no conceitual.
Alguns não se incluem nesse texto. Por exemplo, Eddie Vedder, o vocalista da banda Pearl Jam não se encaixa nos parâmetros, mesmo que chegue perto:
|One, two, three, four, five against one
|Five, five, against one (...)
|I'd rather be with an animal

O pobre. Só não está pior que Drummond, como veremos. Mas antes.
_Um escritor, um rapaz com queda pra revoluções, Bertold Bretch, esse gostava de se relacionar ao natural. Fedendo mesmo.
|Melhor é foder primeiro, e então banhar.
___Gostos são gostos, minha gente. Pelo menos não é como o já citado Carlos Drummond de Andrade, rapaz mesquinho, que saía pensando no bolso:
|Por força da lei mineira, se te levar ao cinema
|levo também tua irmã, teu irmãozinho, tua mãe.
|Porém a mesada é curta e se eu levar ao cinema
|a tua família inteira como passarei o mês
|depois dessa brincadeira?

____Ouvi em algum lugar que parnasianos, todos, permaneceram virgens. Mas as vanguardas vieram por revoluções. Como vemos no poema abaixo, Carlos Drummond de Andrade fazia sexo:
|A moça mostrava a coxa,
|a moça mostrava a nádega,
|só não mostrava aquilo
(...)
Quero dizer, ele pelo menos tentava.
|E torturando-me, e virgem no desvairado recato
|que sucedia de chofre à visão dos seios claros,
|qual pulcra rosa preta como que se enovelava,
|crespa, intata, inacessível, abre-que-fecha-que-foge,
|e a fêmea, rindo, negava o que eu tanto lhe pedia
(...)
___Não riam do pobre.
Não riam. Ele conseguiu às vezes. E achou tudo um negócio extrafenomenal.
|Integração na cama ou já no cosmo?
|Onde termina o quarto e chega aos astros?
|Que força em nossos flancos nos transporta
|a essa extrema região, etérea, eterna?
|Ao delicioso toque do clitóris,
|já tudo se transforma, num relâmpago.

____________E ainda tem o que Hilda Hist tem a dizer sobre assunto, esta que era a únic

posted by b.m. at 9:48 PM conceitu.e:
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Sábado, Outubro 29, 2005


quase um conto erótico.

O copo de conhaque não termina. O beijo que era pra ser coisa pouca não foi coisa pouca. Dela ele constata seu cheiro, passa a boca à face, ao queixo, ao pescoço, por pouco à nuca, volta à boca. O estofado não grande o bastante tem em cima o corpo da menina que se arrasta por ele e se aperta no canto, aí a parede. Quase sentada, a mão que lhe sobe pelas costas quase que lhe leva a camisa cor-de-rosa; ela pára, sorri, pergunta: não vai beber?
Claro, e de um gole tira metade. A menina arruma a saia, se levanta e diz que precisa retirar o calçado, que tanto lhe incomoda. Ele nota que ela não fecha a porta. Olha o copo. Ainda olha o copo. De um gole tira o resto do conhaque, e o ímpeto faz com que caminhe até o cômodo ao lado. A menina mora sozinha. Já descalça estava, frente ao quarda-roupa buscando sabe-se o quê; conversa qualquer e o corpo dela que ele pressiona contra a porta, o som que ressoa; param os dois, que alguém em algum lugar ouviu. Continuam.
Não se sabe quem primeiro cai à cama, que se abraçam e giram, e enquanto o lençol se desarruma mais, ele nela desce a boca ao ventre, a língua que sente gosto de coisa nenhuma, gosto de pele, do que havia na pele, o suor, agora a saliva, percorre o corpo alheio, retira peça de roupa, boca, seios, ainda aqui, sobe, boca, boca, ela se põe de lado, ela se põe sobre o moleque, a saia descomposta, menos um nó de um laço, menos uma saia. Boca, nuca, mão que masturba, de quem, não importa. Dos dois agora.
A calcinha de alguma forma foi retirada. E enquanto lábios e boca e língua a mão retira botão ziper e pernas se distanciam só um pouco mais e se erguem e se abaixam, neste instante bocas que param, mais linearidade nos quadris, respira meio que ofegante, beijo intermitente; avanço, recorrência - de temas: movimento, constância, veloz cada vez mais e lábios boca paladar língua, tato mão pele, da transpiração o cheio, porra, orgasmo de um. Dos dois agora.
Olhos metade mortos, a menina ainda sobre o rapaz, deita sobre, abraçam-se ambos deitados de lado. Procuram alguma coisa pra dizer. A campainha toca e eles se salvam da busca. O moleque levanta, veste a calça direito, abre a porta.
- Olha, o senhor pode me fazer o favor de baixar essa televisão?
Porque ele tinha que acordar cedo para ir trabalhar, que não era vagabundo e que não podia perder tempo com filmes a essa hora de madrugada.
Televisão? O moleque riu e disse que, sim, podia abaixar a televisão.

posted by b.m. at 5:45 PM conceitu.e:
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Sexta-feira, Outubro 28, 2005


unleashed a lion.

Saindo em meia hora para São Paulo
Fnac Paulista.
Tentar comprar ingressos pro show do Pearl Jam.
A telefonista disse que a fila é grande.
Entrega de senhas é às seis.
Preciso de sorte. Sorte, sorte, deus do tempo, me dê sorte.
update
Consegui. A-ha.
Única pessoa pagando em dinheiro. Todo mundo lá com seu cartão.
E tinha a tal taxa de conveniência. Eu não tinha mais dinheiro, mas paguei com o dinheiro da volta pra Santos.
Me sobraram uns dez reais.
Deu pro metrô e um ônibus na direção oposta, casa de parente.
Lá me arrumaram a passagem pra cá.
No ônibus, um cara mostrou um cd "acústico MTV do Pearl Jam. É bom? Eles vão tocar, né? Dia um e dia dois".
É, é. Eu vou.

posted by b.m. at 1:38 PM conceitu.e:
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Terça-feira, Outubro 25, 2005


proximidade, ainda mais uma vez.

Mas, apesar das histórias em que me ligo a eles (pessoas que citei: mãe, irmãos, família), não creio que se deve deduzir daí a proximidade. Sou mais próximo da minha cachorra do que do que do irmão descrito como ruim nos textos abaixo. Sou mais próximo de alguém do qual nunca apertei a mão do que da minha mãe. Proximidade, leitores, não vem falar sobre medidas de quilometros, porque cidades não são nada; nem de medidas de metros, pois casas são só concreto; e tão pouco medidas de centímetros, exemplo da Carolina, que beijava de olho aberto enquanto via o que a outra fazia no computador.
Lembrem que eu falei de amplitude individual, e disse que isto era tudo o que um indíviduo defende, aquilo que ele acha importante nele próprio. Essa amplitude, mesmo com o desejo de proteção, estaria em processo dinâmico, e se envolveria com outras assim como ela. Quanto mais uma amplitude individual se confunde com outra, maior é a proximidade subjetiva (não a medida por réguas). Quando deixam de se confundir, quando se perde a interferência mútua, a proximidade diminui.
quem está _agora_ a teu lado?
quem para sempre está?
quem para sempre estará?

Se proximidade é interferência, há relacionamento de um leitor com escritor, de um cara que ouve música e vê seu pensamento ser expresso. Gestos, gostos, idéias, valores, em troca corrente de um a outro. Assim explica-se porque sou similar a personagem descrita posts abaixo, porque estivemos próximos e as amplitudes se imiscuíram uma na outra.
E você pergunta (claro que não pergunta. mas o autor gosta de pensar que alguém lá no fundo realmente está interessado.) como a interferência pode variar, como a proximidade pode ser controlada, como pode ser subjetiva? Simples. Uma amplitude individual se defende e se divide. Deixa certos elementos que podem ser trocados, outros que ficam escondidos, remotos. Relaciona-se com o que quer deixar a mostra, e protege tudo o que acha que não deve.
---
Essa defesa pode ser chamada de campo a.t.. Certo rapaz escreveu sobre a defesa de personalidade, compactada no "dilema do ouriço". Há onde
afirme que o objetivo de qualquer relação é chegar no mais absurdo ponto de proximidade, na mais dinâmica troca, a que não é pedida nem necessária. (LEIA aqui e aqui, é pouco). O caminho para uma amplitude não individual, mas plural, e que, em tese, é muito maior, seria a sinceridade.
Em uma afirmação apressada: quanto mais sinceridade, maior a proximidade.

posted by b.m. at 12:16 AM conceitu.e:
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Sábado, Outubro 22, 2005


seo jeová fala aos filhos sobre maria.

Seo Jeová pega um baralho na estante e vem mancando na direção da mesa, lado oposto a mim e você. Dizem que seo Jeová amou um dia, e que é por isso que manca e é por isso que brinca com as cartas, fazendo truques, parando de tempo em tempo pra arrumar o olho de vidro no lado esquerdo da cara. Ele nos mostra as cartas, vê só, cartas com figuras desenhadas: ursos, cordas, metáforas pra alguma coisa. Uma única imagem de mulher em meio às sessenta e quatro.
Não faço idéia do que ele me conta enquanto faz um castelo de cartas, nesse exemplo tão óbvio. Observo outras coisas. Sabe bem que eu não te traria aqui para assistir a algum clichê, algo que poderia ter visto antes. E não diga que eu ofendo o homem agindo assim - ele está tão presente quanto eu. Se te conto a história do olho de vidro, você me entende. Sei só que ele fala de Maria, de que era a mais bela, de que tinha molejo. Mas não fala pra mim. Fala pra si.
Vê como faz o castelo com calma. Já está na segunda fileira. Ele diz: repara que essa é meu trabalho, aquela, minha família. Olha, que eu te trouxe aqui pra ver que deus pôs uma metáfora de carne na nossa frente. Sabe por quê esse homem manca? Porque quer. Esse velho de cabelo branco anda com lástima porque não enxerga razão pra andar sem. Fazem piada dele: falam que não encontra o chão, e eu digo, com soberba: também, também. O castelo de seu Jeová tem sempre sete fileiras, pela fama do número. Ele alcança a quinta. Porque isso, filhos, representa um objetivo e outro, e essa, as minhas conquistas.
Gosto dele. Fixa os olhos em mim e sei que não me vê. Quer saber da história do olho? Diz-se de seo Jeová que ele pôs ausência na presença, quis mais de Maria, quis tê-la aqui, e ainda lá, mais uma vez, sempre, sempre. Arrancou um olho com uma colher e colocou perto da moça. Quando saía da casa dela, quando o trinco soava depois da despedida, ele ainda não estava sozinho - que a via assim tão fácil. E quando o olho falhava, porque olhos nem sempre miram o que se quer, ele a procurava no cheiro das mãos, no cheiro das roupas. Alguns, sei, tiraram os dois olhos, mas seo Jeová era dos que precisavam ver a rua.
Comprou na feira um olho de vidro e ajeitou no buraco solto do crânio, pra que as pessoas não vissem que ele não via mais nada. Fixa os olhos em mim e sei que vê Maria. A saudade é um olho deslocado. A vontade é um par de cartas - as duas últimas, uma branca, uma preta, que ele põe no topo, logo acima da força, da coragem, da tristeza e da fé. Olhem, filhos, que isso aqui é o mundo.
Obviedades. Seo Jeová nos monta seu mundo. Está presente pela primeira vez: com o mundo posto (imposto, talvez) a sua frente, ele não consegue ignorar o mundo. Seo Jeová dá um sorriso e comenta: meu olho bom deixa tudo nublado, começa a falhar quando monto esse troço. Tiram sarro dele: nublado? E nunca chove quando teu olho tá ausente? Ele chama o rapaz de filho e, com soberba: não, fica tudo cinza, só. Mas não se preocupa, filho, que o olho que me sobra vê claramente. Seo Jeová aponta uma carta do canto inferior. Seo Jeová diz: vou falar sobre ausência. Essa carta cá representa uma menina chamada Maria. Esse é um exemplo material, pequeno. Um resumo.
Ele puxa a carta do canto inferior esquerdo com certa força. Obviedades.

posted by b.m. at 3:43 PM conceitu.e:
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Terça-feira, Outubro 18, 2005


o jogo de lecter.

E existem, existem sim, tias cá que ameaçaram avó com navalha nua, tem sete primas de um só tio, com nomes pitorescos como Aiheza e Katiusca. Porque pobre, gente, pobre quando tem filho põe nome estranho neles. Tem prima que não gosta de madrasta, que disse que se vê aquela preta, mata ela. Tem Dona Margarida Gomes de Oliveira, uma das únicas pessoas que me consegue erguer em momento de pessimismo - por confiar mais em mim do que eu mesmo, talvez mais do que nela, quem sabe. Tem Seu Antônio de Oliveira, culpado direto por criar aquilo que chamarei agora, com muito garbo, muito pomposamente de "minha intelectualidade". Tem filho dele, tem filho dela, tem irmão daquele, terceiro grau, tem descendente direto, tem família escondida de um desses, que dizem que existe, que dizem que viu, mas, olha, sumiu, cadê? Família tem história. E esse é o jogo de Lecter - você, sim, você (aponta) me conta uma história tua que eu te conto outra. Não tenho razões pra isso e nem sei o que faço se você (sim, você) não fizer nada, mas, sei lá, faça. Te conto a história da mão que ficou podre no meio da macumba. Ou a do velho que morreu e voltou pra ir no banheiro. Ou a dos fogos-fátuos.

posted by b.m. at 1:58 AM conceitu.e:
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Quarta-feira, Outubro 12, 2005


irmãos ou sobre como se chora.

Não creio que ocorram mudanças bruscas no modo como alguém enxerga os que estão a sua volta, depois dos doze, treze anos. Não sem esforço consciente, e, mesmo se houver, restarão vestígios. A visão do alheio permanece dos oito aos oitenta. Coisas, como o jeito de pedir, de conversar, de reclamar, de chorar - essas duram bastante. O resto é periférico. Estratégias.
Sei de cor às vezes em que chorei. Onde. Por quê. Por quem. Há certos princípios na minha cabeça, que funcionam antes de que eu escolha usá-los: minha mente tem uma coisa ou outra que agem à minha revelia. Três irmãos tenho, e apenas um compartilha, ou parece compartilhar, dos mesmos preceitos; os outros dois chamam-se Kevin e Murilo. Meu semelhante chama-se Túlio. O segundo na lista de nomes é o mais novo, posso até dizer que o mais divergente.
Pois este gosta das pessoas, com efusão. Chorou quando lhe disseram que todo mundo morre. Não queria perder as pessoas. Diz eu te amo's, abraça, desenha planetas e corações. Meu preconceito teima em dizer que ele é meio bicha. Por essas coisas, ele já é diferente dos irmãos dele: Túlio e eu. Estes não abraçam e não desenham e não choram com tanta facilidade. Quando eu era mais novo e achava que bater em irmão era uma coisa absolutamente justa, dei-lhe um soco no peito. Não chorou. Estranhei. Dei outro. Sem reação. Dei outro. Dessa vez, saíram lágrimas. Escaparam sem que ele quisesse. Riu nervoso.
Ninguém pôde me ver chorando, com duas exceções. Uma, dentro do ônibus, acredito que na segunda fileira do lado esquerdo, com a cabeça encostada no vidro. Porque pensei que meu avô ia morrer. Fiquei sabendo pelo telefone - "que ele passou mal, caiu na cozinha e foi pro hospital". Desliguei o telefone, ônibus, são vicente-santos, ônibus, são paulo, metrô, ônibus - percebe, tu, que o quê é dito nunca tem só a força do que se disse? Vi um futuro, vi o passado, minha vida passou rente aos meus olhos, inteira. Basta de detalhes a essa história.
A segunda exceção foi a de ter ouvido as piores palavras que um irmão meu me podia ter dito. Falo do irmão do qual ainda resta tratar. Este, filho da mesma mãe, ao contrário dos outros. Que não chora por muito tempo. Que recebe golpe, chora, ri, recebe golpe, chora, ri, como se nada sentisse em verdade. Que só se lembra de que tem avós quando quer dinheiro. Que, invariavelmente, só trata a mãe bem quando quer alguma coisa. Creio que me ofende pelas costas, não me considera lá a melhor pessoa do mundo. Enfim, que é falso, e deixa transparecer, que mente, e mente mal, que só se importa consigo mesmo, mas não tem força pra viver assim. Meu irmão.
Me fez chorar, o filho da puta (sempre tem algum bobo pra dizer: eh, eh, mas é a mesma mãe, eh, eh; tá, filho. ignore e seja feliz). Dissera qualquer coisa sobre eu, a melhor coisa que fazia, era voltar pro lugar de onde eu tinha vindo. Palavras que me tinha sido previstas: um dia, eu ouviria tal; e eu afirmara: besteira, é meu irmão. A previsão, o que ele disse, o fato de eu não ter esperado, o fato de não haver o que dizer - ah! o mundo é expectativa de mundo. Estava escuro, eu estava no sofá perpendicular à televisão, tinha havido alguma briga antes, as lágrimas escorreram sem que eu desse conta delas. Aquele que viria a ser meu maior problema foi o único que me deu apoio. Mãe sentou e deixou passar.
E eu não creio que essas orientações mudem. Sempre tem algum bobo pra dizer, ah, mas ele é criança, não sabe o que diz. Mas sabe o que sente, folk, com som e com fúria sabe o que sente, e se não explodimos com tanta eloqüência quando somos mais velhos é porque mentimos demasiado bem. Eu o admiro por ser sincero. Eu seria hipócrita e reclamaria pelos cantos.

posted by b.m. at 6:33 PM conceitu.e:
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Segunda-feira, Outubro 10, 2005


entre meios, descubro que me repito.

Pensei em duas ou três hípoteses para escrever esse post agora. É de costume: acredito em certa força potencial nesses textos cá que, na maioria das vezes, é ilusória. No escrito anterior, tive veleidades jornalísticas: eu deveria ser imparcial. Nada de elogios, porque não era um post elogioso, e, principalmente, o menor tom crítico que eu pudesse dar, porque o último objetivo que eu tinha era atacar alguém.
No máximo - no máximo - algo como: "Ei, você tem uma pereba".
Hípoteses e ponderações. Uma das coisas que considerei foi a relevância, ou a importância que poderia ter a qualquer leitor que eu falasse da minha família. O mesmo efeito enfadonho, talvez, de pessoas que comentam como foi a última operação que lhe fizeram no rim, e te mostra a cicatriz, e diz, he, he, foi foda. É claro que um objetivo pode ser encontrado nisso: se falo de proximidade, quero dar noção de proximidade - se falo de minha família, você lembra da sua, e aí podemos conversar. Mas não deixa de ser chato: eh, eh, muito foda.
Uma outra coisa é: isso não traz novidade. É a mesma descrição de pessoa do ineditismo, com a diferença do texto ser maior, de haver referências à músicas. Não sei se vale a pena continuar, se contar histórias do meu irmão, se dizer que eu o acho um imbecil por comparação, se dizer que tem perebas, essas, as dele, não metafóricas, porque não toma banho direito.
Mas qual o grande estrondo disso? Chato. Chato e velho.
E as hípoteses. Nessa linha, deduzi que se eu fizesse uma antítese ao texto anterior, começaria uma guerra de posts/comentários nada útil pra ninguém. E, se nada dissesse, as minhas convicções de um ano, citadas no texto como "posts nada simpáticos", teriam valor de poeira. Dois efeitos nada agradáveis.
O que fazer, o que fazer.
Li hoje que o silêncio é uma coisa boa. O som há de ser catalogado, suprimido, digerido e tornar-se-á nada. Mas há de se dizer o por quê do silêncio. Não adiciono uma palavra à história toda, repito o que já disse, e, de resto, deixo que, sei lá, o Trunkael decida se eu continuo a falar da minha família ou não.
pausa
Deus do céu, como eu sou prevísivel. Está vendo esse texto? Um exemplo de recorrência! Olha eu falando da minha família ali! (aponta) e olha eu dizendo que não quero falar mais embaixo! (aponta) Eu até usei a mesma música. A mesma música. Olha só aqui. As mesmas coisas.
Os clichês são verdade porque se repetem aos montes, buddy. Já que eu disse e disse outra vez, calo-me. Assunto encerrado.

posted by b.m. at 10:07 PM conceitu.e:
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Quinta-feira, Outubro 06, 2005


ouvindo los hermanos. #2; minha mãe.

é bom às vezes se perder
sem ter por quê, sem ter razão

Minha mãe não nasceu pra ser mãe. Pode, claro, enfiar comida pela goela, estar próxima e evitar que a criança morra. Prova disso é que meu irmão ainda está vivo. É um idiota, mas, apesar dos pesares, está vivo. Minha mãe não nasceu pra acompanhar uma pessoa; no máximo, andar, andar e esperá-la em algum lugar no meio do caminho. Não acompanhar, nem interferir, exigir jamais. Minha mãe não nasceu pra acompanhar, interferir ou exigir, a não ser por si.
cuida do teu pra que
ninguém te jogue no chão

Muitos, muitos posts desse blog são endereçados a minha mãe. Se algum dia os leu, agiu como faz com a maioria dos problemas alheios: deixou que passassem. Minha mãe não chega a tocar nos problemas que não são seus. Livra-se deles o mais rápido que pode, como alguém abre um guarda-chuva. Tem, ou pensa ter uma vida a zelar. A periferia, que são os outros, não são tão relevantes.
Engraçado que as pessoas pensam que sua personalidade surgiu do nada, de um estalo na existência. Engraçado porque não me parece ser assim. Pelo menos comigo, meus costumes são mistura de reações daqueles que estiveram a minha volta nesses anos. Minha mãe é o que meu avô é, em prioridades. Eu sou minha mãe, nos mesmos termos.
não venha mais me negacear
seu choro não me faz desistir
seu riso não me faz reclinar

Posts nada simpáticos, eu escrevi. Minha mãe, quando desgosta de algo, não é coerente, ou lógica. Ataca. Até que não sobre nada. Tanto quanto são fortes as palavras de efeito que ela, a preço de merda, usa em qualquer briga, foram as coisas que escrevi. Fortes, pra por abaixo. Fortes, porque eu estou com raiva e penso que estou certo. Assim sou eu, assim é ela, assim é o pai dela.
Um dia ela se tornou maior que o pai, por um erro dele. Digamos que esse fato tenha se repetido. Meu ídolo tinha pés de barro, e isso me ocorreu como um baque. Por fraqueza, reagi com força.
é um dom saber envaidecer
por si só saber mudar de tom

Minha mãe nasceu pra ter amigos, com a condição de se livrar deles quando quisesse. Nasceu pra ter família, conquanto pudesse estar longe dela quando bem lhe aprouvesse. Não acredito que tenha casado por achar que casamento era algo especial, bonito ou importante. E sim por ter noção de que era algo a ser feito. Minha mãe faz sua vida pra contar. Se lembro dela sorrindo, é quando fala de seu emprego, ou conta as histórias que teve.
Há alguma coisa de liberdade nela, e isso a desprendeu do resto da família. O barro e os pés da metáfora acima consistem nela não sendo tão livre quanto minhas lembranças exigiam. Quando se acompanha o trabalho, as idéias não brotam com fausto. Quando se vê a história inteira, a edição não dá glória à nada.
Minha mãe deixou de ser quem era. Demoraram cerca de três anos para que amputasse a imagem antiga. Agora, não sei o que é.
quero ver você maior, meu bem
pra que minha vida siga adiante
pra que minha vida siga adiante


posted by b.m. at 1:17 PM conceitu.e:
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Segunda-feira, Outubro 03, 2005


amphibian.

Qualquer contato provém da necessidade. Mesmo que a necessidade não seja consciente, mesmo que a necessidade não seja uma escolha. Assim concluído, partindo de comentários desse blogueiro e dessa blogueira, no primeiro post da série. Uma parte dos dois, portanto, concorda comigo, veja, isso não é inútil. Para partir daqui e chegar ao terceiro comentário feito naquele post, devo falar do que é próximo. Como só sou eloqüente falando do meu umbigo, cá está:

posted by b.m. at 9:55 PM conceitu.e:
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ouvindo ramones. família post #1

we ain't got no friends
our troubles never end
no Christmas cards to send

Tive três. Três famílias. As pessoas foram cada um para o seu lado, e este que vos fala teve seu tempo repartido entre uns e outros. Aprendi a fingir por causa disso. Assim que as casas mudavam, os costumes mudavam - as pessoas querem que você coma, durma, beba, mije, respire de forma diferente. E então você come, dorme, bebe, mija e respira de forma diferente. Aí volta e faz tudo igual. Aí vai pra um terceira casa e faz tudo diverso. Aprendi a ser vários, em dois lados.
Do lado paterno, digo que cortam o pão diferente, tomam banho sempre no mesmo horário, comem salada separado, forçam as crianças a beberem leite de manhã e à tarde, fazem festas de família enormes e rezam todos de mão dada no Ano Novo. Creio que lá pelos catorze anos eu acreditava que todos tinham sérios problemas mentais. Hoje, não diria o mesmo com as mesmas palavras.
Daddy's telling lies
Baby's eating flies
Mommy's on pills

O lado paterno é o lado da minha madrasta. Pois de paterno mesmo, não sei nem onde minha avó mora. O lado de minha madrasta é todo mineiro, e até os catorze eu devia entender mineiro como gente que come salada separado, diz os erres, cumprimenta desconhecido e tem família enorme.
O lado materno se odeia mais do que se gosta. Suportam-se, resignados, por ter uma noção qualquer de que, ora, são família, tem de estar juntos. Sem exceção, só estão felizes quando estão comendo. Natal, Ano Novo, Páscoa - brigam até que comecem a comer. A maioria telefonava, nas festas. Tenho noção que existem primos de terceiro grau, tios avós por ouvir falar. Ou vi de relance. Um lá que era maluco me ensinou a jogar pião. Maluco mesmo. Dizem que apanhou demais nesses centros de reabilitação juvenil e ficou, anh, maluco.
Três famílias: avós, mãe, pai. Falam mal um dos outros, pelo que fizeram ou deixaram de fazer, porque não ligaram, porque olha torto, porque se apoia na perna esquerda, porque pisca demais. Aprendi a ignorar.
we're a happy family
we're a happy family
me, mom and dad


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