Quinta-feira, Junho 30, 2005
drops #2
####__O texto da Claire pode, talvez, quem sabe, ter um paralelo com esse poema, que qualquer um, se o link funcionar, pode ler aqui. Interpretação livre do senhor deste programa, vejam os outros textos.
#__No meu trabalho de vender santo, vendi duas Nossa Senhora Aparecida e um São Jorge. Uma porção de velas - artigo bonito, no formato do santo - são Judas, a nossa senhora que desata nós, a Edwirges, que dá nome praquela coruja do Harry Potter.
E não é só dinheiro que se ganha: outro dia, ganhei três balas e um "boa sorte". Hoje à tarde, uma senhora, por incrível que pareça, nos deixou entrar na casa dela, eu, um outro e mais um, nos contou dois terços de sua vida, nos deu banana (porque seu marido não comia mesmo) e um pote de iogurte pra cada. Mostrou os santos que tinha no quarto dela e no quarto do filho, as fotos do filho com o Sílvio Santo e o Gugu Liberato (por incrível que pareça), ligou pra irmã pra saber se ela queria santo, a irmã não quis, ela mandou a irmã tomar no cu, e pediu desculpas por isso, mas disse que falava mesmo, que não era como os outros (fez pose de gente quieta-emburrada). O braço dela era atrofiado, por causa da cachorra que se jogou sobre ela - um pastor alemão capa-preta, um monstro, um exagero de cadela, que se dá pra fazer três pastores com o que havia ali.
Evangélicos dão risadinhas que me parecem sarcásticas: não, não, não usamos imagens.
O John confirmou pra mim, é verdade; perguntem a ele, um dia, como funciona por lá.
Macumbeiros não dão risadas irônicas, mas devem pensar que tem um conhecimento obscuro e inalcançável, que quando reconheci uma Iemanjá, ou quando citei que, no sincronismo, Nossa Senhora Aparecida era Oxum, ganhei um olhar mui aprovador, e bem mais atenção. O homem até chamou a mãe pra ver a minha santa.
O rapazinho que eu conheci no emprego me perguntou se eu tinha alguma amiga que fazia tên-tên.
Eu disse que sim, talvez, em São Vicente, quem sabe. Ah, mas a Talita sumiu.
posted by b.m. at 10:47 PM c_onceit_u.e: |
Segunda-feira, Junho 27, 2005
c4ta à pess'oa qu e eu era há 20 anos. [rewritten by_claire]
Oi!
Não se espante, eu queria muito, muito mesmo, falar com você. Eu me preocupava com o que você estaria sentindo, justo agora, nessa época...
E queria lhe dizer: isso passará. Sei, são palavras banais, todos lhe dizem ; mas eu posso dizer-lhe, pois eu sei; ninguém melhor do que eu sabe.
Você se aflige e enfrenta um período ruim. Você olha a rua à sua frente e, antes de atravessá-la, pensa em quão pouco importa se a transpor agora, com todos os veículos em movimento; você pensa nisso - eu sei.
Pois olhe: é horrível, mas não é o fim do mundo. Lembra quando aconteceu aquilo quando você era criança? Agradável não foi - porém o mundo não acabou, não é mesmo? Você sobreviveu àquilo, e sobreviverá a muito mais. Não é uma fase difícil como a que está passando que irá destruir você.
Parece otimismo bobo? Não é. Eu sou você, e estou aqui; muitos anos se passaram, e quando me lembro de como você se sentia, e vejo o que sinto hoje, a tranqüilidade ao pensar no passado, posso dizer com um sorriso no rosto: vai passar. Porque (frase simples, comum, né?) tudo passa. Acredite.
Amo você. Isto também: porque você não se amava o bastante - eu sei - e era a razão de sofrer mais. Você merece ser amada, e é: Alguém a ama além do que você julga ser possível (não direi quem é, porque você riria de mim). E eu também a amo; aprendi que mereço, não importa o que me digam, não importa o que tenham dito a você tantas vezes.
Aguarde. Aguarde. Não se desespere; você ainda verá tantas coisas boas!
Com amor, de mim para você.
posted by b.m. at 10:02 PM c_onceit_u.e: |
drops #1
###___Eu disse pra Lara, a carta que ela escreveu me lembra essa música. A carta inicial, feita por mim (the glass that now is gold) é essa aqui.
Agora, do mundo de cá, o que tenho a dizer é que estou trabalhando, me tornei um proletário tal qual esse rapaz. E o que eu faço, meus senhores, é vender imagens religiosas, vender santos, de porta em porta. Coisa bonita, uns trinta centímetros, gesso maciço, uma lampadinha colorida. Carrego uma caixa com uma Nossa Senhora Aparecida de porta em porta - "o senhor é católico?". Olha o catálogo, olha o catálogo.
Vendi um anjo Rafael.
posted by b.m. at 10:00 PM c_onceit_u.e: |
Sábado, Junho 25, 2005
crta |a um amgo. [rewritten by_lara]
Oi.
Já faz um certo tempo, né? Eu acho que na verdade meio que faltou disposição pra eu conseguir chegar até você e dizer o que eu pretendo começar a despejar nessa carta.
Sabe. Lembro de quando a gente fazia planos, e tudo parecia simples, porque as coisas não pareciam ter outra escolha senão seguir o fluxo que a gente determinou. E por um tempo foi suficiente. Eu sentia até aquela inquietação de quando algo grandioso tá prestes a acontecer crescendo aqui dentro. Juro procê que sentia. Eu acreditava naquelas coisas que a gente planejava. E mentiria se te falasse que agora me desfiz dessas crenças. Não. Elas ainda estão aqui dentro. Adormecidas porém, porque eu já não conseguia mais esperar aquilo que fazia voarem as borboletas do meu estômago acontecer de fato.
E o meu amadurecer, que me afunda em muito do que é amargo, sinceramente, não é algo que me impede de ainda poder te chamar de amigo. Porque, passe o tempo que passar, você não deixará de ser aquele sujeito que deitava comigo no banco da praça, e com a cabeça cheia de vinho e os olhos nas estrelas, via demasiada beleza e tristeza onde só havia bancos, árvores, noite e garotos bêbados. O cara com quem eu não me importava de sentar no corredor da escola e tagarelar sobre tudo o que havia de errado com o mundo e com as pessoas, e, em seguida, matutar sobre o que nos cabia fazer pra tentar remediar pelo menos um-sessenta-e-três-avos de toda a porcaria. O amigo que eu encontrei quando eu havia me convencido de que a vida era uma puta duma ingrata. O garoto com quem eu chorei umas lágrimas estranhas de raiva, que brotavam dum peito que subia e descia em convulsão, parecendo querer expulsar toda aquela merda que talhava meu espírito e fazia doer pra caramba. O menino que eu vi chorar, por incrível que pareça, esse mesmo choro esquisito.
Olha. Eu não vou te dizer que eu não choro mais, e não vou te dizer que já não pretendo fazer - ainda que pouca - a diferença pra algo, ou pra alguém.
Acontece que não se vive de lamentos e esperanças, e esse "mundo podre" sobre o qual nós cuspíamos nossa futura glória n´Aqueles dias, me tragou duma forma que eu não duvido que cedo ou tarde te tragará também.
E então, eu tenho certeza de que você vai ter de deixar pra trás esse garoto que não se conforma nem com o seu umbigo nem com o mundo, e enfiar um relógio no teu pulso pra não perder a hora do ônibus.
Talvez eu tenha me atrasado pra te dizer tudo isso. Ou talvez esteja com essa impressão porque só ultimamente tenho percebido a urgência das coisas.
Mas eu arrisco pensar que isto ainda sirva - de alguma forma - pra você.
Sem mais.
[.]
posted by b.m. at 1:27 PM c_onceit_u.e: |
Quarta-feira, Junho 22, 2005
sobre o segundo conceitual e o que o futuro nos trará.
O segundo conceitual, Cartas à, baseou-se em textos escritos para pessoas que, quase invariavelmente, não podem lê-los. Não há temas em comum entre as cartas, não há continuidade, nada gradativamente resolvido. São parecidas no tratamento ao que quer que digam, e somente nisso: coloquiais, não falam nenhuma palavra que eu não use geralmente; e um tanto vagas, não explicam muita coisa, que talvez já fossem do conhecimento do destinatário.
Aos curiosos: a primeira se remete a um rapaz da faculdade, que se considera muito esperto, e deixa de ser, por causa disso; a segunda a um amigo de uns dois, três anos; a terceira, como sabem, ao meu pai; a quarta, a um rapaz com quem convivo há três, quatro anos, e que odeio bastante - entretanto, hoje em dia, só nas horas vagas, quando me lembro - os mais espertos encontrarão nesse texto, do outro conceitual, uma referência a ele. A quinta, endereço a mim mesmo, porque eu me esqueço de certas coisas. Agora: ninguém há de encontrar muito sentido nas cartas muito tempo depois destas serem escritas; são sentimentos que ocorreram num instante com a força de dois infernos. Podem não existir ou podem ter se escondido de novo. Whatever.
E durante o conceitual, o template mudou um bocado. Ganhou uma estilosa faixa preta e os links são agora classificados pela única coisa que blogs dão: amigos e conversas. Menos alguns, que podem pautar as tais conversas.
Quanto ao futuro, atento leitor, ele depende de você. O próximo conceitual eu pretendo que não seja escrito por mim; a idéia é: pegue um texto desse blog (recente ou relevante) e reescreva, sob seu ponto-de-vista, sob seu estilo. Por umas duas semanas eu espero cá pela colaboração, pela atitude cristã em me acompanhar nesse ato, digamos, inútil. Em hipótese alguma sejam malvados e me deixem só, esperando no vácuo.
Vamos ser como o Linkin Park, vendendo a mesma coisa com algum remix, alguém cantando rap, um solo de cavaco.
posted by b.m. at 8:22 PM c_onceit_u.e: |
Segunda-feira, Junho 20, 2005
carta a mim mesmo daqui a vinte anos.
Olá,
Conseguiu? Espero que tenha, para o meu bem. Se não conseguiu, foram vinte anos jogados fora, e eu devia dizer, cá com minha fé de quem ainda não perdeu: continue, não desista; mas não vou, porque se passaram-se vinte anos e você não realizou nada, deve estar fazendo tudo de um modo errado, ou fazendo algo bem estúpido. Você só pode me contrariar se lembrar de muita coisa desses anos.
Sabe tanto quanto eu a diferença entre lembrar do que aconteceu em um ano e ter, vagamente, a noção de que estava vivo em, anh, 1989.
Como vai todo mundo? Porque eu espero que você não tenha deixado um num canto, outro noutro. Ou acreditou naquela história de que sempre se pode voltar e tal? Já vimos isso acontecer: viva junto; mude-se de cidade; e no começo vai parecer difícil ficar tanto tempo, depois vai parecer natural, até que o esporádico vai ser tão comum que nem vai ser necessário. Sempre assim, a nossa vida inteira.
Parei pra olhar a carta que eu estava escrevendo: se você não conseguiu e ainda esqueceu todo mundo, o que eu vivi não faz diferença, eu não existo. Será que você lembra do que é, digo, do que eu sou; ah, você entendeu. Nesse caso, eu teria de te lembrar e então você diria que isso é besteira. "Eu cresci", você diria, "E quando a gente fica velho, as coisas mudam". Nessa hipótese, se olha no espelho e diz: "babaca".
Olha em volta, imbecil. Me responde que trocou o sonho que tenho por uma promoção estúpida em uma empresa qualquer, que eu juro que me mato agora, e você vai chorar no purgatório. Me responde que esqueceu de tudo, que você não vai ter tempo pra esquecer de nada - estou no passado, eu tenho o poder de fazer o que quiser com você.
Tá, tá, isso é só uma hipótese, vou esperar seus argumentos. É que eu, por um acaso, estava ouvindo Elis Regina, que me disse que a dor dela era perceber que ainda era a mesma, e vivia como seus pais. Ah, presta atenção, você só precisa saber de duas coisas, só precisa lembrar de duas coisas: tem que ter a noção que qualquer criança tem, de que não se vive muito bem sem o resto das pessoas, e a noção que qualquer adolescente tem, de que as coisas não valem a pena se não forem de tal jeito. Tudo se resume nisso.
Pelo amor de Deus, não me diz que seu maior objetivo é emagrecer dez quilos antes de Julho. Ou que cultiva, como a gente via quando criança, o ódio de todo dia, falando mal, sem pretensões e sem nunca se livrar disso. Nunca se livrar disso - você leu bem? Nada de que você não pode se livrar é realmente bom. Guarda isso também, guarda isso, mais os outros dois, e o que quer que ser adulto tenha lhe dado, que eu acho que te basta.
Parei de novo. Decidi que não quero saber se conseguiu; me diz o que conseguiu. Com certeza conseguiu alguma coisa. E não desiste não. No máximo, bebe um Johnny Walker inteiro e keep walking. Não vou te dar mais conselhos, afinal, você é mais velho, deve saber o que fazer. Só estou te lembrando como viver.
Que é mais ou menos acreditar, com toda a infantilidade possível, que estar vivo é mais ou menos como jogar Mario, em vez de pensar em tudo como uma gaiola grande demais. Só isso.
Aguardo resposta,
b.m.
posted by b.m. at 2:30 PM c_onceit_u.e: |
Sexta-feira, Junho 17, 2005
carta à pessoa que mais odeio em todo o mundo.
Olá,
Impressionante como você consegue ser desprezível. Eu nem sabia que podia desgostar tanto de alguém assim, a ponto de me sentir desconfortável se você diz "nós" e eu faço parte do pronome. O mundo se torna gradativamente mais belo quanto mais eu me distancio da sua presença. Cada passo, mais satisfação.
Um idiota. Dá pra olhar pra você e no meio das feições perceber que é um idiota. Impressionante é que eu nem conseguia imaginar que alguém pudesse ser tão estúpido com mais de vinte anos, assim como você é. Você é o tipo de idiota dos quais rimos nos filmes, só que sem o estilo deles. Eu gosto do Joe, de Friends, mas não de você. Seu modo de se sociabilizar é copiar o que os outros são. Você se torna seus amigos, e se torna outra coisa assim que não os têm mais.
Se enquadra nas músicas que falam de tipos que a gente aprende a odiar. "Mentalidade de plástico e uma imagem à zelar". "...ele não sabe ser mais livre...não vão embora daqui, eu sou o que vocês são - não solta da minha mão, não solta da minha mão". Um personagem de comédia americana. O único adulto que conheço que cagou nas calças. "...you´re the reason for my misery"; fodeu com a minha vida, e, como os leitores de um certo blog sabem, com outra coisa, e, então, mais ainda, com a minha vida.
Você provavelmente precisaria de um dicionário para ler esse texto.
Mais três dias, com alguém explicando, quem sabe desenhos, quem sabe, tabelas.
Não posso deixar mais explicito que não quero, e, praticamente posso dizer, jamais desejei trocar mais de cinco palavras com você. Eu não consigo entender como posso falar sem te olhar, responder com uma só palavra o máximo que posso, me embriagar na minha ironia, sair da sala, dizer claramente Eu não gosto de Você e Nunca Vou Gostar, e, Você é um Merda (em um momento propício), e, ainda assim, ter as mesmas cenas se repetindo, ad infinitum. Ah, para quem estou escrevendo? Eu morro antes de você sequer imaginar o que é ad infinitum.
O oposto de tudo o que eu quis ser, em todas as instâncias, até nas (por mais absurdo) que faz melhor do que eu. Uma exceção na minha ética. Sou a maldade com intenção de Maquiavel em se tratando de você, e desejo (anjos não odeiam e não podem entender) que os anabolizantes te matem o mais cedo possível. Como quero que faça sol amanhã, como quero que o ar continue limpo e que minha comida não fique envenenada.
"maybe it´s just jealousy, mixing up with a violent mind". Isso é a raiva de Jack quando Tyler transava com Marla no quarto. Isso é o desprezo por você errar tanto. Isso é o transferido da pessoa que realmente merece, por conta de laços genéticos, o despeito por ter sido perdoado quando não devia. Ódio. Por você ter nascido. Por cinco bilhões de possibilidades, e essa coincidência de fatos. Pelas músicas em sua homenagem, pelos singelos textos que também o são. Ódio - "...or maybe i´m just dumb".
ainda não o bastante,
b.m.
posted by b.m. at 1:59 PM c_onceit_u.e: |
Terça-feira, Junho 14, 2005
between love and hate, strokes.
[abre interlúdio]
Meio que a carta abaixo quase que me forçou a dizer de novo o que eu já tinha dito.
You don't make me sorry.
Mas eu me controlei. Não vou repetir o que já tenho como verdade, já disse como verdade e ei de morrer dizendo.
That you never listened - Listen.
Talvez, só talvez - e eu estou falando de um determinado leitor, o sentido de uma frase mudaria, se lesse de novo, com atenção.
Don't sing along with me.
Provavelmente não é você. Em todas as cartas, provavelmente não é você. Note o bem o que está escrito.
Há uma contradição nessa carta abaixo, que muda duas ou três coisas. Percebi isso ontem.
I said I was fine.
E que ninguém se preocupe com ela, por favor (isso com determinado leitor ou pra todos, se quiserem).
Don't worry about it, honey
I never needed anybody
I never needed anybody, it won't change now.
[fecha interlúdio]
posted by b.m. at 9:54 PM c_onceit_u.e: |
Domingo, Junho 12, 2005
carta ao meu pai.
Olá,
Arruinei sua vida quando eu era só esperança, depois arruinei quando fui obsessão, arruinei mais uma vez quando nasci, e continuo arruinando por existir e não ser como você. Dá pra ver por trás dos seus olhos, pai. Dá pra ver quando olha pro Túlio, pro Murillo, que não são você, dá pra ver quando olha, porque você não se vê, nós somos nossa parte materna, em jeito de pensar. E você nem sorri, e nem tenta se aproximar com tanta insistência, porque nem vale a pena, você nem precisa existir.
Isso que eu vejo, na maior parte do tempo, não é você. O rapaz meio gordo, de atos planejados, cuidando dos filhos, não-existindo em excesso - ah, pai, isso não é você de verdade, isso é a imagem daquilo que me torno se um dia eu for derrotado nas minhas convicções, assim como você foi. Porque eu posso apostar, que você, quando mais novo, entendia muito bem como é que se deve viver. E não é assim.
Existir. Existir é mais do que viver. Viver é mais do que permanecer vivo. Você também ouviu isso nas músicas, você sabe tão bem quanto eu. Você só existe, só faz diferença no mundo quando está com amigos em volta. Bebe, anda, conversa. Você só viveu enquanto solteiro, eu posso apostar. Agora permanece vivo até um outro evento, uma outra festa, o que te resta. Não é assim, não é assim.
Vejo você no carro, quando sozinho, há cento e dez quilômetros do que quer que seja. Aí vejo meu pai. Depois ele desaparece, e depois volta, toda vez que vejo seus olhos, com o ônibus indo embora. Só aí. Tem vezes nessa vida que cá percebo que sou um filho da puta, por continuar vivendo normalmente depois de ver essas coisas.
Talvez eu também me esforce por não-existir em excesso.
E essa é uma confissão de fuga tão grande que não posso concebê-la. Seria afirmar a mim mesmo que não me prendo porque tenho medo; e isso lá é coisa que eu diga pra mim mesmo? Nem pensar: sou egoísta, e com isso posso viver. Existindo - fazendo diferença no mundo, do jeito ruim. Posso viver com isso, mas não com o medo.
Agora, olha pro texto inteiro. Vê? Sempre a enxurrada de assunto pra ver se te faço acordar, você, tão falante quanto uma porta quando eu quero conversar. Nunca funciona muito bem, porque haveria de funcionar numa carta? Que morra num blog, como sentimento de um minuto só. E que volte quando for necessária.
seu filho,
dnn. o. rbr.
posted by b.m. at 10:58 PM c_onceit_u.e: |
Quinta-feira, Junho 09, 2005
porque a insistência é a arte dos tolos.
Sou pidão mesmo e vivo bem com isso: para os bons observadores, e, obviamente, solidários leitores deste blog, existe cá ao lado, clicável mui sugestiva com o nome de "fundo de ajuda", a lista de presentes que você - sim, você [aponta] - poderia me dar de aniversário. Há coisas extremamente econômicas, como o encordamento para violão, coisa de juntar vinte centavos a partir de agora, coisa que vai fazer meu violão voltar a ficar afinado de verdade, depois de meses e meses. Vou acabar no inferno por ler Sandman apresenta: Lúcifer, mas não se preocupe, preocupado leitor, que me viro com o Pai Celestial. Livros de preço mui pequeno, e outros um pouco maiores, para os mais afoitos, e para que meus familiares vejam e não possam se fingir de desinformados. Mas vamos, vamos. Clique ali e me dê um presente.
posted by b.m. at 11:15 PM c_onceit_u.e: |
Terça-feira, Junho 07, 2005
carta a um amigo.
Olá,
Coisa que eu queria era que você entendesse essa minha necessidade; que deve ser tua também, que deve ser de todo mundo; vê se entende que eu não larguei nenhuma das idéias que comecei contigo, só que nada andava, e eu precisava concretizar alguma coisa antes que a angústia me criasse uma úlcera. Não me livrei de você; só peguei um pouco mais de espaço.
Enfim, viver, pra mim (olha, que bonito), é um negócio mais urgente do que pra você. Não que eu consiga ou queira encher meu antebraço de relógios, para checar a hora, e ir mais rápido, mais rápido, mais rápido - mas, ainda assim, é urgente, é tudo urgente, tudo está prestes a acabar, e eu poderia ter feito isso antes, aquilo depois. Acabo escolhendo por instinto e às vezes é só assim que funciona. E eu às vezes me desprendo das coisas com uma facilidade/velocidade que me dá medo. Como se nada valesse, e eu sei lá que porra de ser humano é que eu sou.
Não seja sincero em uma só conversa na sua vida, e essas coisas acumulam. Vê só essa carta, resultado de duas ou três opiniões que a gente engole. Concorda comigo que ela é completamente desnecessária, que já passa do tempo dela?
E concorda comigo que essa amizade não estava o décimo céu dourado do paraíso ululante. Sabe bem que não estava. Parece que amizade só floresce com desgraça compartilhada, e você teve sua suposta paixão perdida, e eu, saindo do meu segundo melhor amigo perdido, em, o quê? oito meses? e nós tivemos a separação do povo todo, resumido tudo a eu, você e mais quatro. Tinha desgraça pra dividir até não querer mais. Só que a gente supera.
E você agora parece a minha avó, inventando tempestade, especulando bem antes o que as pessoas poderiam pensar se você fizesse tal coisa em tal situação; emular o namorado perfeitamente dramático, pensa que está em algum filme, quer, sei lá, flores e porcos rosas. Não consigo agüentar mais crise nenhuma, porque já durou tempo demais. Ninguém tem que chorar a vida inteira.
Aliás, falando em chorar - você devia realmente pensar em parar de chorar em público por qualquer merda. Já está assumindo isso como seu personagem: "Ah! Eu sou o cara que chora!". Você sempre faz isso, eu já disse uma vez, só que você fingiu que o alcóol apagou tudo. Dizem que você sempre faz isso.
tá, é isso. acho que é isso,
b.m.
posted by b.m. at 11:00 PM c_onceit_u.e: |
Domingo, Junho 05, 2005
carta a um conhecido.
Olá,
Olha, aqui vai uma porção de coisas que eu acho desnecessário dizer, pois você vai acabar descobrindo de qualquer jeito. É engraçado, porque eu pensava do mesmo jeito que você pensa e hoje já não penso; isso de se achar muito grande, muito capaz, muito inteligente. Aquilo de ver uma pessoa errar a conjugação de um verbo e se considerar extremamente superior. Tirar a razão de alguém sem atacar o que a pessoa falou; coisa de pessoa bem inteligente, mas idiota ao mesmo tempo.
Tal pessoa diz que o livro é azul, e é azul, mas você quer dizer que é verde. E sabe que ele disse, há dois anos atrás, que paca era peixe, e não mamífero. Pronto, venceu. Glória de porra nenhuma, que você sai da discussão sem dar um passo à frente.
E isso acaba na mania de pensar que os outros tem que ter os mesmos gostos que você. Se você leu 1984, de George Orwell, é essencial, essencial, essencial! que o resto do mundo leia; você nunca pensa que as pessoas podem estar cagando e andando pro que você acha importante. Humilde é sempre quem não te ataca. Lembra quando me disse pra não defender o tal professor lá, só porque ele tinha sido ignorante? Mas claro que defendo, inferno: Porque ele não tem - ei, ei, não tem! - que ser simpático com ninguém. Tanta coisa por detrás. Que foi que eu te disse? Que ele poderia estar com tantas coisas na cabeça, e é verdade, eu já vi tantas vezes que até parou de doer quando eu tomava consciência: as pessoas têm lá as suas razões. Porra! Conclusão óbvia! Besta! Me disse pra não defender o homem. Porque estava convencido de que eu me sentiria da mesma forma chocado como você se sentiu. Mas não me senti.
Posso dar uma de psicólogo, e dizer que você só faz isso por defesa: ataca, resume, e se engrandece no processo. Você e aquela menina, a Talita, que criticou a outra num seminário pelo jeito de explicar o texto. A outra só leu. Talita adicionou um "né?" com uma face de entendimento no fim dos parágrafos. E só.
Ah, o resto do mundo é pequeno, o resto do mundo não lê um livro em duas horas, como sou grande, como sou especial. E eu era assim.
Olha, acho que dizer isso nem é necessário, porque você vai acabar descobrindo isso em algum momento, quando perceber que ninguém começou a lamber teus pés porque você sabe o que o Chateuabriand disse naquela ocasião. Ninguém.
creio que é só,
b.m.
posted by b.m. at 6:14 PM c_onceit_u.e: |
Quinta-feira, Junho 02, 2005
sobre o primeiro conceitual e porque os porcos são rosas.
A história de conceitual se baseia na idéia de que eu ponho um tema e o sigo por tantos posts. Por que estou fazendo isso? Porque não há frutos vísiveis para quem mantenha uma linha de posts, nem que se esforce por agradar quaisquer que seja a sua idéia de leitor, está, em verdade, agradando a si mesmo. E se é pra me agradar, que façamos isso de uma vez.
Sim, isso quer dizer que tentei manter uma linha de posts e, que, provavelmente, imitei alguém no processo. Mas não vem ao caso.
O primeiro conceitual vem de uma coisa que eu há tinha feito antes, que era pegar uma música e contar uma história sobre ela; coisas que me lembro, coisas que penso, coisas que imagino - músicas levam a isso, pelo menos as boas. Veja nos arquivos coisas semelhantes, e veja no Bloco de Notas alguns textos afim.
Um outro conceitual será iniciado, e, sim, adorável leitor, você pode dar sua opinião, e prometemos que ela será analisada e possivelmente aceita, em um prazo de dez anos.
Agora, esse pequeno bloggeiro quer informar que seu aniversário se dará no dia 31 de Julho deste ano (e dos outros também), e que coloquei aqui, como os bloggeiros grandes, uma lista de presentes. Coisa reles; afirmo que se começar a juntar dez centavos (menos uma bala, a metade de uma pãozinho, um trinta gramas de tic-tac), se juntar dez centavos a partir de agora, todos os dias, me dará um dos presentes da lista.
Também aceito cds completos enviados por internet, coisa que me faz mui feliz; também aceito livros de cinquenta centavos ou menos, comprados em sebos, contanto que você olhe para o livro e consiga dizer: "aquele moleque tem que ler isso!". Não estamos aceitando beijos nem qualquer demonstração de afeto corporal, pois certas pessoas poderiam ficar nervosas.
Ah, e, curioso leitor, os porcos são rosas por causa da terceira fileira de seu DNA, contando da esquerda pra direita. Sabe? Essa aqui, ó. Viu? Então. Rosa, rosa.
Estou com sono.
Adeus.
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