|
c o n c e i t u a l.
sétimo post de sete.
episódio_1: "música de fundo".
obrigado pela visita, caro amigo.
|
Segunda-feira, Maio 30, 2005
she said: you are never going anywhere.
(i feel like i´m disappearing, getting smaller everyday
(dreaming, dreaming, of a ____ like me)
Como Jesus Cristo disse que era possível a qualquer um que acreditasse, eu me ponho sobre as águas do oceano que criei. As ondas destroem o demônio e o anjo que esculpi, e a última coisa que ouço deles é que gostariam de morrer por doença grave, por tristeza, por saudade, de overdose - que seja! Mas gostariam de morrer como só um humano pode; e não no esquecimento.
Nesta imensidão branca que me parece ser o paraíso, tocam The Doors como música de fundo. Sorrio toda vez que escuto o "this is the end, my friend". Posso ver todos os meus novos e velhos amigos, assim, tão agradecido de que ficaram aqui comigo até o fim. Não há ídolos no céu, porque estes permanecem na sua cabeça. Também é por isso que não encontro deus.
(i feel like i´m disappearing. getting smaller every day.)
Todo o conhecimento que o mundo precisava ter sobre ódio, angústia, amor e fúria saíram de vinte e três garagens de Seattle. [ecos] Não há rebeldia sem Ramones. Não há adolescência sem Green Day [fim dos ecos]. A fúria, a fúria em versos rápidos porque a revolta não se pensa, não se põe em livro didático.
Não sei qual das minhas duas estátuas disse, mas gostaria de morrer, assim, ou de qualquer jeito; pois [ecos] it´s better to burn out than to fade away.
(but when i open my mouth to sing
(but when i look into your eyes
(i´m bigger, in every way.)
Só confio na incerteza. Como é que podia eu desejar estar livre de tudo, se me apegava ao todo com medo do resto? Deslize. Vou gritar até que o mundo mude, vou me suicidar com uma doze numa estufa, vou ser assassinado por um fã, vou dizer a todos eles que nós criamos esse maldito estilo, você só segue. No céu, tocam The Doors, no que é que você queria que eu pensasse?
(i can still hear momma say: "honey, don't let it go to your head")
Luz, sonho, desejo, indecência, perguntas, respostas, oceano, roda-viva, histórias de amantes e mentirosos, bandas, distorção, elaborated plans, narcóticos, pcs, televisores, espelhos, espantalhos, anjos demônios estátuas, tudo, assim exposto, demonstrando o que sou, desaparece. Fim?
(hey, mom! look, i'm up here, finally made it! i finally on my own.)
Meu apartamento é apenas um lugar pequeno com coisas compradas pouco importantes, e uma poça de leite no meio da sala, e eu penso que devo limpar essa mancha de leite em algum momento. Um lugar com uma porta, e eu lembro que tenho saída, e eu recordo que sempre tive, e, provavelmente, sempre terei um lugar para fugir. É o fim? Não. Nunca é.
posted by b.m. at 9:19 PM c_onceit_u.e: |
Sexta-feira, Maio 27, 2005
dream up a new self for himself.
A luz veio demasiado forte. Meu apartamento, tomado por uma massa branca intangível, impressionante. Eu espero por algo. Alguma coisa deve acontecer quando o seu quarto é invadido por luz, alguém deve entrar. Meu anjo sempre diz que os seres humanos são os únicos no espaço que vivem esperando que alguém lhes explique a própria vida. Assim, sempre crianças.
O espelho, o oceano e o espantalho são as únicas coisas vísiveis. Há quatro séculos, quando meu computador era mais real do que eu, eu não era horrível como o espantalho, mas não era belo, pois não tinha rosto. Eu, todo um ser inexpressivo que pensava que vivia. Um rosto sem olhos, sem boca, sem nariz - um ser que não via, não falava, nem sentia, provavelmente com um modem no meio do peito. Meu batimento cardíaco era, pois, o som da conexão.
Há dez séculos ou mais, eu acreditava que a luz logo acima me seguia, aonde quer que eu fosse. Alguns outros séculos e eu decifrei a ilusão, trocando a magia pelos fatos - sem possibilidade de volta. Era isso o que chamavam de adulto.
Embora a liberdade (sempre maldita) permita algumas ilusões de âmbito maior, e mui mais respeitáveis pelas pessoas crescidas. Meu anjo, meu demônio, meus livros, minha música, meu Deus! Josué não criou um mundo, e sim uma farmácia homeopática. Olho ao meu quarto, observo o espantalho: ele está vivo, mas não sente absolutamente nada. Passou a metade da vida procurando, mas ainda é tão vazio quando o quarto em que está.
Só que sou humano como Eva era, e não é da minha índole respeitar limitações nem aceitar ser tão pequeno para todo o sempre; e se o oceano é roda-viva, se me joga de um lado ao outro sem que eu possa pensar, só há um meio de superá-lo. O espelho me diz o que está errado. Jamais no últimos cinco momentos me senti tão forte. Eu decido sonhar.
posted by b.m. at 2:31 PM c_onceit_u.e: |
Segunda-feira, Maio 23, 2005
hey, mr. scarecrow!
Em um átimo, meu anjo e meu demônio tornam-se tão somente duas estátuas, uma em cada canto da sala, e o oceano que cobria o meu apartamento de ponta a ponta se reduz a uma poça de leite no meio da sala. Uma lâmpada queimada, a janela joga a única fonte de luz sobre um rosto num canto. Os cabelos desgrenhados, a barba mal-feita - o rosto de um espantalho.
Eu, fazedor de metáforas esculpi as duas estátuas para que me orientassem. Sempre paradas, olhando o tempo passar, tendo, destas terras que sempre mudam, uma visão que jamais muda. Eu disse "terras"? Fazedor de metáforas que sou, não me coloco sobre a terra. A terra é segura, deita-te e descanse; cá na alegoria do oceano, não é assim.
Olho para aquilo que parece com um espantalho. Uma lágrima? Acho que o vi chorar. Mas, ei, ei, nessa metáfora que fiz de mim mesmo agora que a luz queimou e ainda não a troquei - nesta metáfora, porque haveria um espantalho a me assustar? Minha representação demoníaca, que impeça-me de ser mal demostrando a mim este meu lado; Minha representação angelical, que me leve ao bem, mostrando a mim como é e onde fica.
Aproximo-me do rosto, e vejo ainda lágrimas nos olhos dele; talvez queira ser livre - ah! e eu lhe repito que o problema, o problema, caro amigo, é exatamente esse - ei, senhor espantalho, ai parado e protegido pelo vidro - e se você pudesse tivesse que continuar andando sempre, se tivesse que ver o mundo e saber que não pode ver tudo, e ter todas as necessidades?
Não se sentiria tentado a ficar aqui e não sentir dor, pra sempre?
Súbito, e vejo-me no rosto, noto que era o espelho. Percebo-me sujo e horrível, e nego que este seja o que sou. E o oceano voltou a encher meu quarto, e o bem e o mal voltaram a não ser gesso. Parece que chorei, a face próxima ao chão. Na metáfora do oceano a água começa doce e termina salgada, pelas lágrimas; a tristeza que cria a imagem que está no espelho, a vontade de ser as estátuas que eu faço. Num átimo tudo acontece, e a luz volta.
posted by b.m. at 3:22 PM c_onceit_u.e: |
Quinta-feira, Maio 19, 2005
feel good - hit of the summer.
Disseram que pegaram dois pacotes de derby e acabaram em duas horas; e, oh! essa juventude está mesmo perdida, não é mesmo, meus caros amigos? Que minha avó também contava, me lembra o demônio cá ao meu lado, que fumou escondido o cachimbo do avô dela, e tossiu, e quase vomitou. Meu anjo olha para os adultos e sabe o que escondem. Não me conta o que vê.
O diabo sempre fica recordando o que não deve; viver é esquecer, tento dizer, mas ele insiste: fala do silicone de carro, e dos acontecimentos nessa ordem: tontura, risada e pés quentes. Seu cérebro tendo a gordura aquecida, ficando pequeno. Que dirão os juízes se tomarem o chá de fita que não deu a nenhum deles (aqueles outros) mais do que um mês de dores de estômago.
Nenhum visão de deus ou mundo especial, como as que Jim Morrison tinha. Nem pense em submarinos amarelos, que ninguém os viu; mas posso te contar que um deles afirmou um dragão, depois de quinze daqueles comprimidos pra dor de dente. Queria saber como descobrem isso; por exemplo, quem foi o primeiro que colocou tal colírio no nariz e alucinou-se?
(sou bravo, sou forte, sou filho da morte. ei, ei, pára que tua mãe tá vendo!).
Faz assim: pega o pó, espalha, divide, divide de novo, aspira. Baudelaire preferia o ópio, aquela menina do White Stripes não fica de pé muito tempo, pelo alcóol; e Kurt Cobain se matou com heroína - é que nem pedra? (pergunta Mariana) é que nem pedra? Que você esquenta e... - deve ser, deve ser. Matou-se, todo mundo acha mui feio. Ah, que o guitarrista do Doors não se lembrava de um maldito solo, talvez nem de que tivesse feito um.
(éramos só uns garotos que inalavam benzina, diz Fê Lemos, colega de Renato Russo. nicotine, valium, vicodin, marijuana, ecstasy and alcohol -
no cocaine, que todo mundo olha como se fosse olhar pra cara da morte.
posted by b.m. at 2:46 PM c_onceit_u.e: |
Segunda-feira, Maio 16, 2005
like television.
___she´s cruel and she´s free, like television.
Houve um tempo, há quatro séculos, que no meu apartamento, mais real que eu era o meu computador. Séculos, e eu me tornei vivo, vindo do sal.
___it´s only a dream of lovers and lies.
Ela disse ao meu demônio que assim, assim, estava pensando em - e ele cortou-lhe a cabeça. Ela disse ao meu anjo antes, meu anjo abaixou a cabeça e foi-se embora, voando, voando.
___she´s always around and under my skin.
Sou eu, repetindo os casos de amor que meu tataravó Beto tinha, e os confrontos que ele tinha, e mui habilmente passou pelas gerações; o que é que eu sou? O que eles eram? O que é que eram? Ah! Minha essência é divina.
___we fall into bed, our tongues are tired.
Disse o Renato que ele só pensa em sexo; aquele outro não disse, mas também; e aquela ali, nem disse nem sabe, mas também. Os pés da menina formigam num orgasmo, naquele filme, o Efeito Borboleta - ele vive três vidas alternativas pra fazer de novo e de novo e de novo.
___and when we embrace she pulls me inside.
A idéia disso tudo é se unir como o Shinji e a Rei se unem em Evangelion. E voltar a deixar de ser um pra ser um par.
___oh, how the waves wash over me.
É cruel, é de graça, é apenas um sonho de amantes e mentirosos. Mas quem dá os nomes são os donos dos dicionários; que tem mui medo de tudo, que não amam e se acovardam com uma palavrinha meio torta.
___she´s in my head. like television.
Sempre, sempre.
posted by b.m. at 10:26 PM c_onceit_u.e: |
Sábado, Maio 14, 2005
mas eis que chega a roda-viva.
O meu apartamento tem um computador, uma pessoa, dois Seres e está enfestado pelo oceano, pelo mar mediterrâneo, pelo mar cáspio, por todos os mares. Que da água viemos e a ela retornaremos; o anjo ao meu lado diz que sou mais velho que o mundo. Eu penso no meu passado. Nostalgia.
Construção de vida com dispositivo auto-defensivo, mas que ainda contenha beleza, e, de preferência, cheire bem. Construção de uma roseira.
(mas eis que chega a roda-viva)
E se digo: chega de trabalho! Que também sou filho de deus como meus irmãos angelico-infernais, e tenho que ter lá meus prazeres. E ligo para um, e falo com outro, e não posso impedir que cada palavra que eu escute de boca alheia, que exista fora de mim tenha mais relevância que a de outras fontes - que nos dão tão maior quantidade de proteção.
Vontade aproximação (e.t. phones home); a gente quer estar é tempo todo assim, você sabe - Serenata, pra ver se ela me atende.
(mas eis que chega a roda-viva)
Nem isso e nem aquilo, que eu como todo humano que honra a raça, bem que quero ser deus. Sou fiel aos preceitos de meu pai para saber como é que o pilantra conseguiu; e a gente toma iniciativa, coloca dentro da cabeça tudo o que consegue pegar. E mesmo quando não pego nada, só quero é que me arranjem uma vaga de santo, que além de fácil, fica original.
Por ser fora da massa. Ser mais. Estar fora da masa. Ser quem sou: a gente toma a iniciativa, viola na rua a tentar.
(e carrega o destino e a saudade pra lá)
O samba, a viola, a roseira, foi tudo ilusão passageira, que a brisa primeira levou. As coisas se movem demais. Meu apartamento comporta o oceano, e eu rezo pra que parem a maré. Maldito sal, maldita maré.
posted by b.m. at 4:49 PM c_onceit_u.e: |
Quinta-feira, Maio 12, 2005
belzebu has a devil put aside, just for me.
O problema de tudo é o seu livre-arbítrio. Eu é que tenho escolha, e essa idéia que me vêm enfiando na cabeça há mais de dez anos, de que tenho que ter opções. E quem tem opções não se desespera, meus caros amigos, quem tem opções calcula probabilidade quando está caindo de um prédio - que se ficar paraplégico, pelo menos vai poder ler. Libre-arbítrio acaba com sofrimento.
O diabo cá ao meu lado diz que sem sofrimento, nessa vida, não se vive; e o anjo do outro lado diz o mesmo. Concordam, e sorriem como irmãos que são. Quem tem outra estrada, morre nessa e segue à outra. Um objetivo perde a importância. Livros, mesas, camas, quartos, coleções mui sagradas da infância, suas lembranças, seus amigos, sua família, as pessoas - tudo.
A opção te joga de volta e ainda mais uma vez à você mesmo.
E o diabo me diz que a liberdade te diz duas coisas na metáfora do oceano, a saber: um - você sabe nadar; dois - há água por todos os lados.
Afogue-se na sua liberdade. É até agradável.
De novo? Repito: nem Cristo nadou o Índico inteiro, o problema de tudo, meus caros amigos, é o livre-arbítrio. O diabo cá ao lado diz que minha resolução em cruzar uma, duas, três vezes o Atlântico com os braços nus é coisa mui tola; e mesmo alguém com vela e vento, só se o vento ajudar.
Porque para eles isso importa, digo a ele. Mas e pra mim e pra ti? The way the winds blows doesn't really matter for __
.(mãe, ele veio e eu não o matei. fugi porque minha liberdade permitia; olhe só, veja você, bem quando posso, bem quando podemos nós todos. Não o matei, não coloquei a arma no pescoço dele e puxei o gatilho. Não perdi minha vida, mãe, e sou completamente infeliz com isso).
posted by b.m. at 10:57 PM c_onceit_u.e: |
Três pessoas passaram por aqui e devem ter visto um template amarelo mui estranho, e uma história de blog conceitual.
Mas já passou, já passou.
posted by b.m. at 10:32 PM c_onceit_u.e: |
Quarta-feira, Maio 11, 2005
porque a juli mandou.
Daquelas listas do tipo: sigam-me os bons!
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Eu queria, em verdade, ser um livro que não existe, que é bem velho, que contém uma cobra mordendo (lá com suas razões) a própria cauda - aquele, do (livro) A História Sem Fim. Que contém todo um mundo, com todos os seus personagens, que quase morre, e que revive e é recriado por quem o lê. Mas, como não existe, fico com o que mais perto conseguimos fazer: ou a Bíblia ou Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez.
Já alguma vez ficaste apanhado por um personagem de ficção?
Desde os quatorze, ou sei lá quando que li o primeiro, acho a Hermione de Harry Potter uma menina bastante perfeita.
Qual foi o último livro que compraste?
Comprar livros? Eu? De acordo com minha (mui conveniente a meu status econômico) filosofia, não preciso do objeto livro, e, sim, só da leitura. Entro em livrarias para irritar vendedores, mas não se irritam mais, que já se acostumaram. O último seria O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro (perdoai a rima), por imposição da faculdade, mas que é bom é, folks.
Qual o último livro que leste?
A Pedagogia do Oprimido, que disse que meu modo de ver a educação, a sociedade, a cultura e a revolução estavam, no mínimo, equivocados. Por abstração só minha, falou de diálogos, de textos, de família. Li ao mesmo tempo um manual de radiojornalismo que não terminei, e o Jornalismo Esportivo do Paulo Vinícius Coelho, da ESPN. E uns livros sobre Candomblé.
Que livros estás a ler?
Seis Propostas para o Próximo Milênio, de Italo Calvino, indicação do Trunkael. Todos aqueles que eu pego pra folhear, leio uma parte e deixo para algum outro momento da minha vida, a decidir. Também o último HP, por causa da Hermione, por que o Harry tá virando macho e não fica chorando: "ai, minha cicatriz", porque a história prende a atenção e porque a escritora nasceu em 31 de Julho, meu aniversário.
Cinco livros que levarias para uma ilha deserta?
Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez; A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector; Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa; Antologia Poética de Fernando Pessoa, pra que eu veja a beleza de tudo, e pra que Jesus venha menino, brincar comigo e chamar deus de velho safado; e O Retrato de Doryan Gray, de Oscar Wide, pra que eu lembrasse do mundo e de tudo o que ele impede. Óbvio que isso se estende. Óbvio que bem eu queria Clube da Luta, porque ele diz o mesmo que Oscar Wide, e vence o jogo. Troque por qualquer livro da Clarice, que me deixam perdido no ar com a resposta de não sei bem que pergunta. Isso se estende, até o infinito. Até os que não li, o que seria bem esperto, já que vou querer novidade.
Três pessoas a quem vais passar este testemunho e por quê?
Chamaria vinte, se não já tivessem sido convidadas; quero que escrevam: A Marcely, do Accela; o Rafael do Escrever por Escrever; o Marcos, do Esculacho e Simpatia. Curiosidades de razões diferentes.
posted by b.m. at 11:33 PM c_onceit_u.e: |
Segunda-feira, Maio 09, 2005
não leia a pedagogia do oprimido.
A Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire é um livro perigoso. Não fará bem.
Não leia a Pedagogia do Oprimido.
posted by b.m. at 8:51 PM c_onceit_u.e: |
Domingo, Maio 08, 2005
três letras.
Foi difícil entender, impossível de acreditar,
uma vida devotada, embasada em sobreviver.
Mais que qualquer ideal sobressai o teu amor,
não há ruas, partidos e regras para te deter.
Mais que uma instituição feita para deformar,
liberdade e emoção me permitiram sonhar.
Tu és a vida real e sempre esteve de pé,
nunca reclamou da batalha que é criar.
Sociedade e discriminação - cabeça erguida a enfrentar,
nenhum patriarcado ou família te fizeram calar.
Não há nada a provar, eu já posso entender.
O que pode ser mais rebelde depois de você?
Forte, viva e a sorrir
sua vitória deve insultar a todos que preferem te ver a chorar.
Acredite, aprendi demais,
seu silêncio constrangedor.
Liberdade é muito mais que palavras a dizer.
Gostaria de agradecer - espero um dia retribuir,
coração do meu céu, por favor, seja feliz!
Agora vem a tua vez! Usufrua do teu amor,
sua prole sobreviveu, e só resta agradecer...
São Marias, Severinas, Robertas, Daianas, Martas...
Mulheres fortes
que sobreviveram.
(antologia cancioneira #7, Tango, de um dos primeiros cds do Dead Fish. Na íntegra, para o dia das mães, e à todas as mulheres que, concorde comigo, dariam um livro por dia.)
posted by b.m. at 5:50 PM c_onceit_u.e: |
Sábado, Maio 07, 2005
interlúdio.
Ia haver aqui um post todo choroso, por causa de um não-acontecido. Mas ele aconteceu.
posted by b.m. at 6:05 PM c_onceit_u.e: |
Sexta-feira, Maio 06, 2005
check it out, folk.
Ah, mudei o post que estava aqui. Não que isso ou o blog novo (que está logo aqui, ao lado) não sejam interessantes, mas é que, oras, tive vontade de escrever. Deixe as suas coisas de lado por um instante e falemos de amenidades.
Falemos, por exemplo, de um certo ódio instintivo que cultivo por pessoas que tem o seu futuro lido por cartas e semelhantes. Aquele olhar aparvalhado, ao saber que um homem vestido de negro entrará na sua vida, que tal pessoa é como o urso, tome cuidado com seus abraços ou ainda que tal homem louro irá trazer grande felicidade. O olhar aparvalhado e: Ah! Um homem louro! Será que ela fala do Juan? Meu Deus, é o Juan, ela acertou! Assim, assim.
Lembra-me um acontecimento, lá na avenida frente a praia vicentina, em que um homem com um cartaz mui esquisito tentou provar-nos, entre outras coisas, que as mulheres não eram seres naturais, e que não tinham nariz. Tentamos convencê-lo, mostrando o nariz de uma menina a ele, mas o homem manteve-se convicto. E isso realmente aconteceu, e, por alguma razão estranha, persistimos em discutir com o indivíduo.
E o desfile de miss e mister cá na abertura dos Jogos da Facul? Imaginar-se-á um diretor por trás de tudo: pisa no palco e não pára de sorrir! E as meninas vão, sem mover um músculo do rosto. Dentes bem a mostra. Os homens bem mais deslocados, com a convicção de que aquilo consiste em ir de um lado para o outro e voltar. Só isso. Ah, você tinha que ver a modestia ensaiada da campeã, em movimentos mudos dos lábios: oh! não acredito! Mão no peito, mui impressionada consigo mesma.
Ah, mas são só amenidades. Não abra guerras contra mim, ser imaginário que é o meu leitor. Ou abra, infeliz, que sempre me dei bem contra seres imaginários na infância, and i dare you could ever touch me. Come'on.
posted by b.m. at 12:32 AM c_onceit_u.e: |
Terça-feira, Maio 03, 2005
num fôlego só.
Evandro acorda. E relembra que possuí uma hora e meia para tomar banho, colocar roupas aceitáveis, se alimentar e seguir de carro até o emprego, para conseguir dinheiro, para se manter vivo por mais alguns anos. Ainda pensa a casa passo que precisa consertar o escapamento do carro, buscar o Juninho na escola às três, ah, e a peça na escola da Maria no sábado, se ele esquece a filha fica sem olhar na sua cara por algum tempo. O quê? O que foi que tua mãe gritou? Ah, sim, claro, amor - eu passo no supermercado, compro pão, manteiga, café, alface, açúcar, abobrinha. Evandro conta o dinheiro e calcula que metade do salário já se foi e que a outra metade não dá pra metade de um copo de cerveja. Entra no carro e sai do carro porque esqueceu a chave; vê as contas do lado do objeto, as contas de água, de luz, conta da tv à cabo, com programação de nível, para que as crianças não vejam porcaria, para que tenham um bom futuro e sejam gente decente. Estudar, estudar, você tem que estudar, diz ele aos filhos; primeira segunda terceira série primeiro segundo terceiro colegial - não vai sair nesse fim de semana, tem que estudar pro vestibular. Artrite. Evandro sente artrite, percebe que está velho. O telefone. Ligar para a mãe, pra tia, pro avô, para a sobrinha, aniversário da Marta, o Júlio ganhou uma medalha, vai ter uma reuniãozinha lá na casa do Adamastor. Ah! O Adamastor é que tem vida! Reunião e cerveja e churrasco e papo vem, papo vai, lembra da adolescência - aquilo que eram dias! - você lembra? Lembra daquele acontecimento? Claro que lembra. E a infância? Ninguém nem fala, mas eles pensam, quando Maria entra na sala. Olha minha filha que bonita (com o laço que eu comprei para mostrar a vocês, e o vestido e os sapatos, ah, a filha que eu fiz pra mostrar pra vocês) - Olha minha filha! - Presta atenção, menina, e aproveita que essa é a melhor parte da vida. Depois você tem que ficar responsável e é foda. E não é que a menina pára, analisa os adultos, e num momento de profundo cinismo e admirável conhecimento de causas, efeitos e contexto, pergunta: "Então por que é que vocês todos não se matam de uma vez?". Ah. Comparações do autor com o Galileu, a Inquisição e a Terra que tinha que ser quadrada. Castigos à Maria.
posted by b.m. at 11:56 PM c_onceit_u.e: |
Segunda-feira, Maio 02, 2005
quem quer dinheiro? - um texto ingênuo.
As pessoas se esquecem que o dinheiro não é nada. Um intermediário, não um fim; e, não, não digo para que queimem os bancos, rasguem suas notas e saíam nus cantando Singing in the Rain pelas ruas. Mas em verdade, em verdade vos digo que o dinheiro não é nada, que quase ninguém precisa tanto dele como pensa. Algo como uma distorção da realidade.
Claro que a sociedade é formada em torno dele; claro que o que compra um celular, aquilo que paga as cervejas num bar, ou o que te leva para cá e para lá no ônibus é exatamente o dinheiro. Mas o objetivo não é o consumo por si, nunca foi até a dita distorção - na roda de bar, as pessoas são o ponto importante. Encha sua mesa de notas de dez doláres e tente conversar.
O telefone te liga às outras pessoas; não vale como enfeite, não precisa ser belo. Automóveis te deixam mais próximos às pessoas. O objetivo deve ser reconhecido, e ninguém (presumo) considera dois sacos de lixo cheios de dinheiro em si algo atraente. O capitalismo existe pela vontade de obter um produto que deve ter utilidade relativa ao comprador; a distorção diz que devemos acumular, para comprar... - bem, para comprar. Deus sabe o quê.
E há uma imensa quantidade de produtos que podem ser utilizados sem a propriedade - sendo esta irrelevante em metade das opções, eu arrisco. Descubra por si mesmo, olhe o mundo a sua volta - aquele que é compartilhado, e não etiquetado, organizado e vendido. Há um exemplo bem distante que ilustra bem: não recordo agora uma pessoa da minha idade que não tenha assistido Mundo da Lua, da tv Cultura, série na qual um garoto guarda os devaneios num gravador. Um dia o gravador quebrou.
E, a imaginação presa à necessidade do objeto, não conseguia mas fugir ao mundo particular dele. Até que lhe avisaram que podiam. E ele vive sozinho, sem o instrumento, e a série acaba.
|
|